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Coerência metodológica: quando sua tese fala com uma só voz

Uma única incongruência entre o seu holótipo, o seu objetivo e o seu desenho de pesquisa pode comprometer toda a tese. É assim que se verifica e se corrige.

Existe um tipo de problema nas teses que passa despercebido até o dia da defesa. Não é um erro pontual, não é uma citação mal redigida nem um dado equivocado. É algo mais profundo: um desajuste entre as peças do desenho metodológico que faz com que a pesquisa não funcione como um todo integrado.

O objetivo geral diz “descrever”, mas o enunciado holoprático pergunta por causas. Ou o referencial teórico sustenta uma pesquisa explicativa, mas o desenho é transversal não experimental. Ou as conclusões respondem a perguntas que os objetivos específicos nunca formularam.

Isso é falta de coerência metodológica. E na compreensão holística da ciência, desenvolvida pela Dra. Jacqueline Hurtado de Barrera, essa coerência não é um ideal difuso: tem uma estrutura precisa, pode ser verificada antes de avançar e existem ferramentas concretas para diagnosticá-la e corrigi-la.

O que é a coerência metodológica na compreensão holística da ciência

Dentro da compreensão holística da ciência, a coerência metodológica é a congruência entre todos os componentes do processo investigativo: o enunciado holoprático, o nível de profundidade, o holótipo de pesquisa, os objetivos, o desenho, as técnicas de coleta, as técnicas de análise e as conclusões.

Hurtado de Barrera descreve uma pesquisa coerente como aquela em que cada componente é derivável dos demais. Se você conhece o enunciado holoprático, pode deduzir o objetivo geral. Se conhece o objetivo, pode identificar o holótipo. Se conhece o holótipo, pode determinar o tipo de desenho, as técnicas apropriadas e o tipo de resultado que será obtido. Essa é a lógica do holograma de pesquisa: a partir de qualquer peça, o todo deveria ser visível.

O oposto, a falta de congruência, gera o que a autora chama de incongruências metodológicas: desenho incongruente com o tipo de pesquisa, tipo de pesquisa incongruente com os objetivos, objetivos incongruentes com as conclusões. Cada incongruência se arrasta e se amplifica nas fases posteriores.

O holograma de pesquisa: a coerência tornada visível

O holograma de pesquisa é uma ferramenta visual proposta por Hurtado de Barrera para representar a totalidade do estudo a partir de um só de seus componentes. Seu nome vem da holografia: assim como um holograma contém a imagem completa do objeto em cada um de seus fragmentos, em uma pesquisa coerente cada componente contém informação suficiente para deduzir os demais.

É assim que funciona na prática: você toma o enunciado holoprático e, a partir dele, deriva em cadeia:

  • O nível de profundidade — quão profundo é o conhecimento que busco produzir?
  • O holótipo de pesquisa — que tipo de resultado vou gerar?
  • O objetivo geral — qual é o verbo que descreve esse resultado?
  • Os objetivos específicos — quais passos intermediários preciso cobrir?
  • As unidades de estudo e a população — sobre quem ou o quê recairá a análise?
  • O desenho de pesquisa — como vou coletar os dados?
  • As técnicas e instrumentos — com o que vou coletá-los?
  • As técnicas de análise — como vou processar a informação?
  • O tipo de conclusões — que forma terão meus resultados finais?

Se em algum desses passos a derivação não funciona — se o desenho escolhido não corresponde ao holótipo, ou as técnicas de análise não são as adequadas para o tipo de dados que serão obtidos — há uma incongruência. O holograma a torna visível antes que seja tarde.

Os quatro níveis de profundidade e seus holótipos

A compreensão holística da ciência organiza os dez holótipos de pesquisa em quatro níveis de profundidade que vão de menor a maior complexidade. Entender esses níveis é essencial para a coerência, porque o nível determina o holótipo, que determina o objetivo, que determina o verbo, que determina o desenho.

Estes são os quatro níveis segundo Hurtado de Barrera (2010):

NívelHolótipoPergunta que orientaVerbo do objetivo
PerceptualExploratóriaO que há no contexto? O que se pode perguntar sobre o evento?Explorar, indagar, descobrir
PerceptualDescritivaComo é o evento? Quais são suas características?Descrever, caracterizar, tipificar, diagnosticar
ApreensivoAnalíticaEm que medida o evento se ajusta a um critério? Que juízo merece?Analisar, interpretar, criticar, julgar, valorar
ApreensivoComparativaEm que se diferenciam ou se assemelham dois ou mais grupos quanto ao evento?Comparar, contrastar, diferenciar, cotejar
CompreensivoExplicativaPor que ocorre o evento? Quais são suas causas?Explicar, identificar causas, teorizar
CompreensivoPreditivaComo o evento se manifestará no futuro se ocorrerem certas condições?Predizer, estimar tendências, antecipar cenários
CompreensivoProjetivaQue proposta ou desenho resolverá o problema identificado?Propor, projetar, formular, criar
IntegrativoInterativaQue mudanças a intervenção gera sobre o evento estudado?Modificar, intervir, aplicar e avaliar o processo
IntegrativoConfirmatóriaVerifica-se a hipótese derivada da teoria explicativa?Confirmar, verificar, comprovar, contrastar
IntegrativoAvaliativaEm que medida o programa ou intervenção alcançou seus objetivos?Avaliar, estimar impacto, estimar efetividade

O nível de profundidade não é uma escolha livre: está determinado pelo estado do conhecimento sobre o tema e pelo propósito investigativo. Se sobre o evento que se investiga já existem descrições e análises prévias, pode-se partir de um nível compreensivo. Se não existem, é preciso começar pelo perceptual.

A espiral holística: por que não se pode pular níveis

Um dos princípios mais importantes para a coerência metodológica é o que Hurtado de Barrera chama de espiral holística: cada holótipo de nível superior requer como ponto de partida os resultados do nível anterior. Não por capricho metodológico, mas por uma razão lógica: não se pode explicar o que ainda não foi descrito, nem predizer o que não foi explicado, nem confirmar uma hipótese sem que exista uma teoria explicativa que a sustente.

Espiral holística da pesquisa que relaciona objetivos e metodologia

Em termos práticos, isso significa:

  • Uma pesquisa explicativa requer que já existam descrições e análises do evento (na literatura ou como estágios prévios do próprio estudo).
  • Uma pesquisa projetiva requer que já tenham sido identificadas as causas do problema que se vai resolver — caso contrário, a proposta carece de fundamento.
  • Uma pesquisa confirmatória requer uma hipótese derivada de uma teoria explicativa já existente. Não se pode confirmar o que nenhuma teoria explicou.
  • Uma pesquisa avaliativa requer que a intervenção já tenha sido aplicada e que existam critérios de efetividade previamente definidos.

O erro de pular níveis é um dos mais frequentes nas teses de mestrado e doutorado: pesquisadores que propõem uma pesquisa projetiva sem evidência de terem passado pela fase explicativa, ou que declaram uma pesquisa confirmatória sem contar com uma teoria que sustente sua hipótese.

A solução nem sempre é refazer todo o trabalho. Às vezes basta reafirmar o holótipo no nível correto segundo as condições reais do estudo, ou incorporar o reconhecimento explícito das pesquisas prévias que cobrem os estágios anteriores.

A cadeia de coerência: da pergunta às conclusões

A coerência metodológica não é uma propriedade abstrata: é uma cadeia concreta de correspondências entre componentes. Se uma só dessas correspondências se rompe, a cadeia perde sua função.

Esta é a cadeia completa, com os pontos de ruptura mais frequentes em cada elo:

Enunciado holoprático → nível → holótipo

O interrogativo usado no enunciado determina o nível e o holótipo. “Em que medida X se ajusta a [critério]?” é analítico. “Por que ocorre X?” é explicativo. “Que proposta permitiria resolver X?” é projetivo. Se o interrogativo não corresponde ao holótipo declarado, há uma incongruência desde a origem.

Holótipo → verbo do objetivo geral

O holótipo determina o verbo. Uma pesquisa descritiva não pode ter como objetivo “explicar” nem “projetar”. Uma pesquisa analítica usa verbos como analisar, interpretar, julgar, valorar. Uma pesquisa explicativa usa explicar, identificar causas, teorizar. Uma pesquisa projetiva usa propor, projetar, formular. O verbo equivocado muda o tipo de pesquisa, ainda que o pesquisador não tenha essa intenção.

Objetivo geral → objetivos específicos

Os objetivos específicos são os estágios intermediários necessários para alcançar o objetivo geral. Uma pesquisa projetiva, por exemplo, deve incluir como objetivos específicos ao menos uma descrição do problema, um diagnóstico de suas causas e a construção dos critérios para a proposta. Se os objetivos específicos não cobrem esses estágios, o salto ao nível projetivo não tem sustentação.

Objetivos → desenho de pesquisa

O desenho descreve como os dados serão coletados. Não pode ser contraditório com o holótipo: uma pesquisa confirmatória requer um desenho que permita estabelecer relações de causalidade (experimental, quase-experimental). Uma pesquisa descritiva pode usar desenhos transeccionais. Uma pesquisa interativa requer um desenho que inclua a aplicação de uma intervenção e o acompanhamento de seus efeitos.

Desenho → técnicas de análise → conclusões

As técnicas de análise devem ser congruentes com o tipo de dados que o desenho produz e com o resultado esperado segundo o holótipo. Uma pesquisa analítica não conclui com frequências estatísticas: conclui com um juízo fundamentado sobre o evento em relação ao critério de análise. Uma pesquisa explicativa conclui com uma explicação causal, não com uma caracterização. As conclusões que não se derivam dos objetivos formulados — por mais interessantes que sejam — rompem a cadeia.

As incongruências mais frequentes nas teses

Hurtado de Barrera identifica em sua obra os padrões de incongruência que aparecem com maior frequência nos projetos de pesquisa. Estes são os mais comuns no contexto das teses de pós-graduação:

1. O enunciado holoprático contém várias pesquisas diferentes

Uma pergunta como “Quais são as características da liderança nas escolas e que proposta permitiria melhorá-la?” mistura um holótipo descritivo (caracterizar) com um projetivo (propor). O resultado é uma pesquisa com objetivos e resultados pouco claros, carregada de incongruências entre seus distintos aspectos. O enunciado holoprático deve ser um só, coerente com um único holótipo.

2. O tipo de pesquisa não coincide com o objetivo geral

É a incongruência mais detectada pelas bancas de tese: o pesquisador declara que sua pesquisa é “descritiva”, mas seu objetivo geral diz “Projetar um programa de…”. Projetar é projetivo. O tipo de pesquisa não é decidido pelo pesquisador por gosto: é determinado pelo verbo do objetivo geral.

3. Os objetivos específicos pulam estágios

Em uma pesquisa projetiva cujos objetivos específicos vão diretamente ao desenho da proposta, sem descrever o problema nem analisar suas causas, a proposta final não tem fundamento metodológico. A banca detectará isso porque não há nada no corpo do trabalho que justifique a proposta.

4. As conclusões respondem a perguntas que não foram formuladas

Às vezes, durante a pesquisa, surgem achados interessantes que o pesquisador inclui em suas conclusões, embora não estivessem em seus objetivos. Isso não é um enriquecimento: é mais uma incongruência. As conclusões devem derivar-se diretamente dos objetivos formulados no início. O que sobra vai para as recomendações ou para a agenda de pesquisas futuras.

O que isso significa para a sua tese?

Verificar a coerência metodológica da sua tese não é uma revisão que se faz no final, quando tudo já está escrito. É uma verificação que deve ser feita antes de avançar de uma fase para outra, e o holograma de pesquisa é a ferramenta para fazê-la.

Este é o exercício básico de verificação:

  1. Tome seu enunciado holoprático. O interrogativo que você usa corresponde ao holótipo que você declara?
  2. Tome seu objetivo geral. O verbo que você usa pertence ao holótipo que você declara? Revise a tabela de correspondências.
  3. Tome seus objetivos específicos. Eles cobrem os estágios anteriores que seu holótipo requer como ponto de partida? Há algum salto de nível sem justificativa?
  4. Tome seu desenho de pesquisa. Ele é congruente com o holótipo? Permite coletar o tipo de dados necessário para produzir o resultado esperado?
  5. Tome suas técnicas de análise. Elas produzem o tipo de resultado que corresponde ao seu holótipo: uma caracterização, um juízo, uma explicação, uma proposta?
  6. Tome suas conclusões. Cada conclusão pode ser vinculada diretamente a um objetivo específico?

Se as seis respostas forem congruentes, sua tese tem coerência metodológica. Se alguma não for, esse é o ponto exato onde você precisa corrigir antes de continuar.