5 min de leitura

As abordagens de pesquisa: como definir sua estratégia metodológica

Mapa hexagonal de abordagens de pesquisa gerado pela Tutoeris

No referencial metodológico de qualquer tese, há um componente que costuma ser omitido ou definido ao acaso: a abordagem. E, no entanto, é a decisão que determina como você se aproxima do seu evento de estudo. Não o que você pesquisa, mas como o enfrenta.

Se o método é o caminho que você percorre, a abordagem é a atitude com a qual você o percorre: se vai de olhos abertos ou com um mapa definido, se quem decide o percurso é você ou a comunidade estudada, se você descreve o que vê de dentro ou de fora.

Na Compreensão Holística da Ciência, proposta pela Dra. Jacqueline Hurtado de Barrera, as abordagens não são rótulos rígidos. São critérios complementares que o pesquisador combina conscientemente para construir uma metodologia coerente com sua pergunta.

De onde vem a palavra “abordagem”?

Etimologicamente, vem de ad (em direção a, proximidade) e borda (costado externo de uma embarcação). Abordar é transcender a borda para entrar em contato com a realidade que queremos conhecer. Não é uma metáfora qualquer: a abordagem implica uma intenção, uma direção e uma maneira de se aproximar.

Essa definição é importante porque desfaz um equívoco frequente: pensar que a abordagem é apenas sinônimo de “enfoque qualitativo” ou “enfoque quantitativo”. Na pesquisa holística isso não é suficiente, nem correto.

Os três critérios da abordagem

A metodologia holística define as abordagens a partir de três eixos que podem ser combinados entre si. Nenhum exclui o outro.

1. Segundo o grau de estruturação: caológico vs. cosmológico

A abordagem caológica vem de khaos (espaço aberto). Trata-se de uma aproximação com mínima estruturação prévia. O pesquisador suspende preconceitos e categorias preestabelecidas para captar o que emerge da realidade. É a abordagem adequada quando o evento não foi suficientemente estudado, quando se desconhece a cultura que se pesquisa ou quando se buscam categorias emergentes que não existem na literatura.

Atenção: caológico não significa improvisado. Exige registros minuciosos, escuta ativa e grande capacidade de observação.

A abordagem cosmológica parte de cosmos (ordem). O pesquisador chega com um referencial conceitual sólido, definições operacionais e teorias já estabelecidas. É a adequada quando o fenômeno está bem documentado e o objetivo é verificar se ele se apresenta sob condições específicas.

2. Segundo o nível de participação: endógeno vs. exógeno

A abordagem endógena (ou participativa) ocorre quando a própria comunidade estudada faz parte ativa do processo. A inquietação de pesquisa surge de dentro do grupo, e o pesquisador cumpre um papel de facilitador. É especialmente relevante em estudos de transformação social ou intervenção comunitária.

A abordagem exógena parte do interesse do pesquisador. Os participantes fornecem informações sem necessariamente se envolverem nas decisões metodológicas. É o modelo mais habitual em pesquisas descritivas ou analíticas com amostras amplas.

3. Segundo a perspectiva de interpretação: êmica vs. ética

A abordagem êmica centra o olhar nos pesquisados. O pesquisador busca compreender o evento a partir do quadro de referência das próprias unidades de estudo: suas categorias, sua linguagem, sua visão de mundo. Exige empatia e o que Hurtado chama de epoché: colocar entre parênteses os próprios juízos para ver a realidade como o outro a vivencia.

A abordagem ética opera a partir do quadro de referência do pesquisador. A análise se apoia na linguagem técnica e nas categorias científicas do campo disciplinar, independentemente de coincidirem ou não com o que os participantes percebem de si mesmos.

Para que serve definir as abordagens?

A resposta mais direta: para não cair na armadilha da dicotomia qualitativo/quantitativo.

Durante décadas se assumiu que, se você começasse de forma caológica, não poderia ser cosmológico depois; ou que o caológico obrigava a ser êmico e endógeno ao mesmo tempo. A compreensão holística rompe com isso com base em evidências: as abordagens são contínuas e combináveis.

Isso significa que uma pesquisa pode, por exemplo, iniciar com uma abordagem caológica para identificar categorias emergentes em um grupo comunitário (êmica) e depois passar a uma abordagem cosmológica para medir quantitativamente essas mesmas categorias em uma amostra mais ampla (ética). Não há contradição, há desenho estratégico.

Definir as abordagens também tem implicações diretas em:

  • A validade interna: A abordagem correta garante que você colete a informação que sua pergunta realmente precisa. Um estudo sobre vivências emocionais com abordagem ética mal aplicada distorce a realidade dos participantes.
  • A seleção de técnicas: O nível de estruturação determina se você usa instrumentos fechados (escalas, questionários) ou técnicas abertas (entrevistas não estruturadas, observação etnográfica).
  • A ética do processo: Decidir se os pesquisados participam ativamente (endógeno) ou apenas fornecem dados (exógeno) é uma decisão que afeta a relação com as comunidades estudadas.

O que isso significa para sua tese?

A pergunta que você deve se fazer não é “minha tese é qualitativa ou quantitativa?”, mas três perguntas mais precisas:

  1. Com quanta estrutura prévia abordo o evento? → Caológico, cosmológico ou uma combinação em diferentes fases.
  2. Quem lidera o processo investigativo? → O pesquisador (exógeno) ou a comunidade (endógeno)?
  3. A partir de qual perspectiva interpreto os dados? → A minha como pesquisador (ética) ou a dos participantes (êmica)?

As respostas a essas três perguntas definem sua abordagem metodológica e, a partir daí, a coerência de todo o desenho.

Gere seu mapa de abordagens diretamente na Tutoeris

Mapa das abordagens de pesquisa

Próximo passo sugerido: Pegue seus objetivos específicos atuais. Para cada um, responda às três perguntas: De quanta estrutura prévia preciso?, Quem lidera o processo?, A partir de qual perspectiva interpreto? Se as respostas ainda não estiverem claras, esse é exatamente o trabalho que a seção de abordagens faz na Tutoeris.