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As abordagens de pesquisa: como definir sua estratégia metodológica

No referencial metodológico de qualquer tese, há um componente que costuma ser omitido ou definido ao acaso: a abordagem. E, no entanto, é a decisão que determina como você se aproxima do seu evento de estudo. Não o que você pesquisa, mas como o enfrenta.
Se o método é o caminho que você percorre, a abordagem é a atitude com a qual você o percorre: se vai de olhos abertos ou com um mapa definido, se quem decide o percurso é você ou a comunidade estudada, se você descreve o que vê de dentro ou de fora.
Na Compreensão Holística da Ciência, proposta pela Dra. Jacqueline Hurtado de Barrera, as abordagens não são rótulos rígidos. São critérios complementares que o pesquisador combina conscientemente para construir uma metodologia coerente com sua pergunta.
De onde vem a palavra “abordagem”?
Etimologicamente, vem de ad (em direção a, proximidade) e borda (costado externo de uma embarcação). Abordar é transcender a borda para entrar em contato com a realidade que queremos conhecer. Não é uma metáfora qualquer: a abordagem implica uma intenção, uma direção e uma maneira de se aproximar.
Essa definição é importante porque desfaz um equívoco frequente: pensar que a abordagem é apenas sinônimo de “enfoque qualitativo” ou “enfoque quantitativo”. Na pesquisa holística isso não é suficiente, nem correto.
Os três critérios da abordagem
A metodologia holística define as abordagens a partir de três eixos que podem ser combinados entre si. Nenhum exclui o outro.
1. Segundo o grau de estruturação: caológico vs. cosmológico
A abordagem caológica vem de khaos (espaço aberto). Trata-se de uma aproximação com mínima estruturação prévia. O pesquisador suspende preconceitos e categorias preestabelecidas para captar o que emerge da realidade. É a abordagem adequada quando o evento não foi suficientemente estudado, quando se desconhece a cultura que se pesquisa ou quando se buscam categorias emergentes que não existem na literatura.
Atenção: caológico não significa improvisado. Exige registros minuciosos, escuta ativa e grande capacidade de observação.
A abordagem cosmológica parte de cosmos (ordem). O pesquisador chega com um referencial conceitual sólido, definições operacionais e teorias já estabelecidas. É a adequada quando o fenômeno está bem documentado e o objetivo é verificar se ele se apresenta sob condições específicas.
2. Segundo o nível de participação: endógeno vs. exógeno
A abordagem endógena (ou participativa) ocorre quando a própria comunidade estudada faz parte ativa do processo. A inquietação de pesquisa surge de dentro do grupo, e o pesquisador cumpre um papel de facilitador. É especialmente relevante em estudos de transformação social ou intervenção comunitária.
A abordagem exógena parte do interesse do pesquisador. Os participantes fornecem informações sem necessariamente se envolverem nas decisões metodológicas. É o modelo mais habitual em pesquisas descritivas ou analíticas com amostras amplas.
3. Segundo a perspectiva de interpretação: êmica vs. ética
A abordagem êmica centra o olhar nos pesquisados. O pesquisador busca compreender o evento a partir do quadro de referência das próprias unidades de estudo: suas categorias, sua linguagem, sua visão de mundo. Exige empatia e o que Hurtado chama de epoché: colocar entre parênteses os próprios juízos para ver a realidade como o outro a vivencia.
A abordagem ética opera a partir do quadro de referência do pesquisador. A análise se apoia na linguagem técnica e nas categorias científicas do campo disciplinar, independentemente de coincidirem ou não com o que os participantes percebem de si mesmos.
Para que serve definir as abordagens?
A resposta mais direta: para não cair na armadilha da dicotomia qualitativo/quantitativo.
Durante décadas se assumiu que, se você começasse de forma caológica, não poderia ser cosmológico depois; ou que o caológico obrigava a ser êmico e endógeno ao mesmo tempo. A compreensão holística rompe com isso com base em evidências: as abordagens são contínuas e combináveis.
Isso significa que uma pesquisa pode, por exemplo, iniciar com uma abordagem caológica para identificar categorias emergentes em um grupo comunitário (êmica) e depois passar a uma abordagem cosmológica para medir quantitativamente essas mesmas categorias em uma amostra mais ampla (ética). Não há contradição, há desenho estratégico.
Definir as abordagens também tem implicações diretas em:
- A validade interna: A abordagem correta garante que você colete a informação que sua pergunta realmente precisa. Um estudo sobre vivências emocionais com abordagem ética mal aplicada distorce a realidade dos participantes.
- A seleção de técnicas: O nível de estruturação determina se você usa instrumentos fechados (escalas, questionários) ou técnicas abertas (entrevistas não estruturadas, observação etnográfica).
- A ética do processo: Decidir se os pesquisados participam ativamente (endógeno) ou apenas fornecem dados (exógeno) é uma decisão que afeta a relação com as comunidades estudadas.
O que isso significa para sua tese?
A pergunta que você deve se fazer não é “minha tese é qualitativa ou quantitativa?”, mas três perguntas mais precisas:
- Com quanta estrutura prévia abordo o evento? → Caológico, cosmológico ou uma combinação em diferentes fases.
- Quem lidera o processo investigativo? → O pesquisador (exógeno) ou a comunidade (endógeno)?
- A partir de qual perspectiva interpreto os dados? → A minha como pesquisador (ética) ou a dos participantes (êmica)?
As respostas a essas três perguntas definem sua abordagem metodológica e, a partir daí, a coerência de todo o desenho.
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Próximo passo sugerido: Pegue seus objetivos específicos atuais. Para cada um, responda às três perguntas: De quanta estrutura prévia preciso?, Quem lidera o processo?, A partir de qual perspectiva interpreto? Se as respostas ainda não estiverem claras, esse é exatamente o trabalho que a seção de abordagens faz na Tutoeris.