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População e amostra na sua tese: como definir quem participa da sua pesquisa

Aprenda a definir a população e a amostra da sua tese a partir da compreensão holística da ciência: diferenças, tipos de amostragem e como evitar os erros mais frequentes.

Um dos momentos que mais paralisa quem escreve uma tese chega na hora de responder esta pergunta no capítulo metodológico: “qual é a sua população e qual é a sua amostra?”. E a resposta que costumam dar não está totalmente errada, mas também não está completa.

O problema de fundo é que a maioria dos textos de metodologia apresenta esses conceitos de forma rígida e desconectada do restante do desenho. Assim, o tesista aprende a definir população e amostra, mas não a entender por que existem, quando se aplicam e como se relacionam com o holótipo da sua pesquisa.

A partir da compreensão holística da ciência, proposta pela Dra. Jacqueline Hurtado de Barrera, esses conceitos se enquadram em um sistema mais amplo que inclui a unidade de estudo, as fontes e os informantes. Entender essa arquitetura completa é o que faz a diferença entre um referencial metodológico sólido e um que a banca vai questionar.

Antes de falar de população: a unidade de estudo

Na compreensão holística da ciência, o termo central não é “população”, mas a unidade de estudo. Por quê? Porque “população” carrega conotações que nem sempre se aplicam: sugere um conjunto de pessoas, quando na verdade a sua pesquisa pode estudar documentos, organizações, eventos, processos, objetos ou situações.

A unidade de estudo é o elemento singular do qual se obtém a informação relevante para a pesquisa. É a unidade básica de análise. Todo o resto (população, amostra, técnicas de coleta) se define em relação a ela.

Exemplos de unidades de estudo:

  • Em uma pesquisa sobre desempenho acadêmico: o estudante (não a instituição, não a sala de aula).
  • Em uma pesquisa sobre gestão empresarial: a empresa (ou o gestor, conforme o evento de estudo).
  • Em uma pesquisa sobre comunicação organizacional: a mensagem ou o documento (não quem o redigiu).
  • Em uma pesquisa sobre práticas pedagógicas: a aula (não o professor nem o aluno isoladamente).

Definir bem a unidade de estudo antes de falar de “população” evita um dos erros mais comuns: confundir quem participa da pesquisa com o que é estudado nela.

O que é a população em uma pesquisa?

A população —ou, mais precisamente na terminologia holística, o holos— é o conjunto total de unidades de estudo que compartilham as características definidas no evento de estudo e que fazem parte do contexto da pesquisa.

Três elementos a definem:

  1. As características do evento de estudo: quais qualidades as unidades devem ter para fazer parte desta pesquisa?
  2. O contexto espaço-temporal: em que lugar e período estão localizadas?
  3. A delimitação do acesso: quais estão disponíveis para serem estudadas?

Exemplo: se a sua pesquisa busca descrever as estratégias de comunicação interna das pequenas empresas do setor de manufatura da cidade de Caracas durante 2025, a sua população é o conjunto de todas as pequenas empresas de manufatura de Caracas ativas nesse período. Esse é o seu universo de referência.

Quando você precisa de uma amostra?

Aqui vem o ponto que mais gera confusão: nem toda pesquisa exige amostra.

A amostra é um subconjunto da população selecionado quando não é possível ou conveniente estudar a totalidade das unidades. Só faz sentido quando:

  • A população é grande demais para ser abordada por completo.
  • Os recursos de tempo, orçamento ou acesso não permitem estudar todo o universo.
  • O holótipo de pesquisa implica generalização de resultados (descritivo amplo, explicativo, preditivo, confirmatório).

Por outro lado, se a sua pesquisa é qualitativa de caso único, ou se estuda uma organização inteira, ou se o seu holótipo é projetivo e você só precisa de informação de um grupo específico para desenhar uma proposta, talvez trabalhe com todos os casos disponíveis sem precisar extrair uma amostra formal.

A regra prática: se você pode acessar toda a sua população e faz sentido fazê-lo dada a sua pergunta de pesquisa, trabalhe com a totalidade. Se não pode ou não é necessário, define uma amostra.

Tipos de amostragem: qual se aplica à sua tese

Existem duas grandes famílias de amostragem. A escolha entre elas depende do seu holótipo de pesquisa e do que você busca fazer com os resultados:

Amostragem probabilística

Implica que cada unidade da população tem uma probabilidade conhecida (e maior que zero) de ser selecionada. É o tipo de amostragem que permite generalizar estatisticamente os resultados ao universo. Suas variantes mais comuns são:

  • Aleatória simples: cada unidade é selecionada de forma aleatória, sem restrição.
  • Estratificada: divide-se a população em subgrupos (estratos) e extrai-se uma amostra proporcional de cada um.
  • Por conglomerados: selecionam-se grupos já formados (turmas, departamentos, regiões) e estudam-se completos ou parcialmente.
  • Sistemática: seleciona-se uma unidade de cada intervalo definido (a cada 10, a cada 20, etc.) a partir de um ponto de início aleatório.

Aplica-se principalmente em pesquisas de holótipo descritivo amplo, comparativo, explicativo, preditivo e confirmatório, em que os resultados buscam representar a população completa.

Amostragem não probabilística

A seleção das unidades não segue critérios de aleatoriedade estrita. Não permite generalização estatística, mas é completamente válida e rigorosa quando a pesquisa não busca esse tipo de generalização. Suas variantes mais usadas são:

  • Por critérios ou intencional: selecionam-se as unidades que melhor representam o fenômeno segundo critérios teóricos definidos pelo pesquisador. Muito usada em pesquisas qualitativas.
  • Bola de neve: uma unidade leva à seguinte, útil quando a população é de difícil acesso (grupos específicos, especialistas, comunidades fechadas).
  • Por conveniência: trabalha-se com as unidades disponíveis. Válida em estudos exploratórios ou quando o acesso é a única limitação.
  • Por cotas: estabelecem-se proporções de certos perfis e selecionam-se unidades até completar cada cota.

Aplica-se em pesquisas exploratórias, analíticas, projetivas, interativas e avaliativas, em que a profundidade da análise importa mais do que a representatividade estatística.

Como calcular o tamanho da amostra

Se couber amostragem probabilística, o tamanho da amostra não é uma decisão arbitrária. Calcula-se com uma fórmula que considera:

  • O tamanho da população (N)
  • O nível de confiança desejado (geralmente 95%, equivalente a z = 1,96)
  • A margem de erro aceitável (e, frequentemente 5%)
  • A proporção estimada da característica na população (p = 0,5 se desconhecida)

A fórmula mais utilizada para populações finitas é:

n = (N × z² × p × q) / (e² × (N − 1) + z² × p × q)

Onde q = 1 – p. Se a população é muito grande ou desconhecida, usa-se a fórmula para populações infinitas: n = z² × p × q / e².

Para pesquisas não probabilísticas, o critério de saturação teórica substitui o cálculo estatístico: continua-se incorporando unidades até que a informação obtida deixe de agregar elementos novos à análise.

O erro mais frequente: confundir quem informa com o que se estuda

Este é o ponto crítico em que a maioria dos tesistas comete o erro mais custoso: confundir a unidade de estudo com a fonte ou com o informante.

Retomemos o artigo anterior do blog (“Unidade de estudo, fonte e informante: quem é quem na sua tese?”):

  • A unidade de estudo é aquilo que se investiga: a empresa, o estudante, o texto, o processo.
  • A fonte é de onde provém a informação: um documento, um registro, uma base de dados.
  • O informante é quem fornece a informação sobre a unidade de estudo: pode ser a própria unidade (um trabalhador que responde sobre sua própria experiência) ou alguém externo (um supervisor que reporta sobre sua equipe).

O erro clássico: uma pesquisa sobre práticas gerenciais nas pequenas empresas que declara como “população” os gestores dessas empresas. Os gestores são os informantes, não a unidade de estudo. A unidade de estudo é a empresa. Esse erro parece menor, mas muda a forma como você redige o desenho, as técnicas e a interpretação dos dados.

O que isso significa para a sua tese?

Antes de escrever a seção de população e amostra do seu capítulo metodológico, responda a estas quatro perguntas em ordem:

  • Qual é a minha unidade de estudo? (a entidade concreta sobre a qual recairá a análise)
  • Qual é a totalidade dessas unidades no meu contexto? (essa é a sua população)
  • Posso e devo estudar todas, ou preciso selecionar um subconjunto? (isso determina se há amostra e que tipo de amostragem se aplica)
  • Quem ou o que vai me fornecer a informação sobre essas unidades? (esse é o seu informante ou a sua fonte)

Se você responder a essas quatro perguntas com clareza, a seção de população e amostra da sua tese se escreve sozinha. O problema, em quase todos os casos, é que se tenta responder à quarta sem ter resolvido bem a primeira.