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Hipótese de pesquisa na sua tese: quando você precisa dela e como redigi-la

Nem toda tese precisa de hipótese. Aprenda quando formulá-la conforme o seu holótipo de pesquisa, como redigi-la corretamente e os erros mais frequentes. Compreensão holística da ciência.

Poucas coisas geram mais angústia em um tesista do que a pergunta de seu orientador: “qual é a sua hipótese?”. E poucas coisas geram mais confusão metodológica do que a resposta apressada que costuma vir em seguida.

O problema não é que os tesistas não saibam o que é uma hipótese. O problema é a crença, profundamente enraizada em muitos programas universitários, de que toda pesquisa precisa de uma hipótese. Essa crença é incorreta, e formular uma hipótese quando ela não cabe não é uma formalidade inofensiva: distorce todo o desenho metodológico.

Neste artigo vamos esclarecer, a partir da compreensão holística da ciência da Dra. Jacqueline Hurtado de Barrera, o que é exatamente uma hipótese de pesquisa, em que tipos de pesquisa ela se aplica, quando não se aplica e como formulá-la corretamente quando de fato é necessária.

O que é uma hipótese de pesquisa?

Uma hipótese de pesquisa é uma proposição tentativa que estabelece uma relação entre duas ou mais variáveis (ou eventos de estudo) e que pode ser contrastada empiricamente. Não é uma suposição ao acaso, nem uma pergunta, nem uma afirmação daquilo que o pesquisador deseja que aconteça.

A hipótese cumpre uma função muito específica no processo investigativo: antecipa uma resposta possível à pergunta de pesquisa e orienta o desenho rumo à coleta de dados que permitam verificar ou rejeitar essa antecipação.

A partir da compreensão holística da ciência, a hipótese não é um requisito universal de toda pesquisa. É um instrumento próprio de certos holótipos. Usá-la fora de contexto é um erro metodológico, não uma demonstração de rigor acadêmico.

A raiz do mal-entendido: o modelo hipotético-dedutivo

Durante décadas, o método hipotético-dedutivo foi apresentado como o método científico por excelência. Sob esse modelo, toda pesquisa devia seguir a sequência: problema → hipótese → coleta de dados → verificação. E, se a sua pesquisa não cabia nesse esquema, parecia que algo estava errado.

O problema é que esse modelo descreve bem apenas a pesquisa confirmatória — e, em parte, a preditiva —, mas não descreve adequadamente as pesquisas exploratórias, descritivas, analíticas, projetivas, avaliativas nem interativas, e tampouco reflete com precisão como funciona a pesquisa explicativa, que, em vez de partir de uma hipótese, a gera como resultado.

A compreensão holística da ciência põe fim a essa confusão ao propor que o método se seleciona em função do holótipo de pesquisa e do nível de conhecimento que se busca gerar, e não o contrário. Sob essa perspectiva, a hipótese surge quando o holótipo a exige, e não porque seja um requisito burocrático.

Em quais holótipos de pesquisa a hipótese se aplica?

Entre os dez holótipos da compreensão holística da ciência, a hipótese se aplica em apenas dois:

Pesquisa confirmatória

É o único holótipo que exige hipótese de forma obrigatória. A pesquisa confirmatória parte de uma hipótese derivada de uma teoria já elaborada — frequentemente construída em uma pesquisa explicativa anterior — e estrutura todo o processo empírico para verificar se essa proposição se confirma ou não na realidade. Sem hipótese, não há nada a confirmar.

Hipótese confirmatória: “As organizações com programas formais de bem-estar no trabalho apresentam índices de rotatividade de pessoal significativamente menores do que aquelas sem tais programas.”

Pesquisa preditiva

A pesquisa preditiva exige ter passado previamente por uma pesquisa explicativa que tenha construído a teoria sobre a qual se baseia a predição. Com essa teoria como ponto de partida, o enunciado holoprático é formulado em direção ao futuro: “Como o evento A se manifestará caso se mantenham as condições X, Y, Z?”. A hipótese aqui é preditiva: expressa o comportamento antecipado com base nessa teoria.

Hipótese preditiva: “Se a taxa de evasão universitária nos cursos de engenharia mantiver a tendência observada entre 2020 e 2024, até 2027 mais de 40% dos matriculados não concluirão o segundo ano do curso.”

Em quais holótipos a hipótese NÃO se aplica?

Esta é a parte que mais surpreende os tesistas: oito dos dez holótipos não exigem hipótese. Formulá-las nesses contextos não é rigor acadêmico: é uma incoerência metodológica.

HolótipoPor que não exige hipótese / o que usa em seu lugar
ExploratórioNão há conhecimento prévio suficiente para antecipar resultados. A pesquisa busca categorias emergentes. Uma hipótese pressuporia aquilo que ainda não se conhece.
DescritivoO objetivo é caracterizar o evento tal como ele é. Não antecipa relações nem causas: descreve propriedades, dimensões e características.
AnalíticoAnalisa o evento a partir de um critério de análise (norma, lei, referencial teórico). Esse critério orienta a interpretação; não há nada a verificar empiricamente em forma de hipótese.
ComparativoEstabelece semelhanças e diferenças entre grupos ou contextos. Não antecipa nem verifica relações causais.
ExplicativoDescobre causas, razões e processos que geram um evento. Não parte de uma hipótese: gera-a como resultado. É o passo anterior à pesquisa confirmatória.
ProjetivoElabora uma proposta, modelo ou solução. Não há relação causal a verificar: o objetivo é construir algo que resolva um problema.
InterativoIntervém na realidade e observa as mudanças. Trabalha com processos participativos nos quais uma hipótese fechada seria incompatível com a dinâmica do processo.
AvaliativoAvalia em que medida um programa cumpriu seus objetivos. Usa critérios de avaliação predefinidos, e não proposições causais a verificar.

Dois desses holótipos merecem um esclarecimento especial porque geram a maior confusão:

A pesquisa analítica usa um critério de análise: uma norma, lei, referencial teórico ou sistema interpretativo que permite ao pesquisador reorganizar as dimensões do evento e descobrir aspectos não evidentes. Esse critério cumpre uma função estruturante que a hipótese não poderia cumprir, porque aqui não se busca verificar uma proposição causal, mas sim compreender um evento a partir de uma perspectiva específica.

A pesquisa explicativa não parte de uma hipótese: ela a gera como resultado. É o processo de descoberta de causas, razões e processos. Quando essa teoria explicativa já existe, é a pesquisa confirmatória que toma essa hipótese e a submete à verificação empírica. Confundir as duas é um dos erros mais frequentes no desenho metodológico.

Como formular uma hipótese corretamente

Quando o holótipo de fato exige hipótese, sua formulação não é livre. Ela deve atender a certos critérios para ser metodologicamente válida:

1. Deve ser falseável

Uma hipótese que não pode ser provada como falsa não é cientificamente útil. “Os bons líderes têm bom caráter” não é uma hipótese: não há como operacionalizar “bom”. Em contrapartida, “os líderes com alta pontuação em inteligência emocional obtêm melhores avaliações de desempenho de suas equipes” é, sim, falseável.

2. Deve expressar uma relação entre variáveis ou eventos

A hipótese não descreve um único evento: relaciona ao menos dois. Essa relação pode ser de associação, de causalidade ou de predição, conforme o holótipo. “As empresas do setor financeiro têm altos níveis de rotatividade” é uma proposição descritiva, não uma hipótese.

3. Deve ser coerente com o enunciado holoprático e o objetivo geral

Se o enunciado holoprático pergunta “Qual é a relação entre X e Y?”, a hipótese deve expressar essa relação de modo afirmativo: “Existe uma relação positiva entre X e Y na população Z”. Se não houver coerência entre os três elementos, o desenho apresenta uma fratura estrutural.

4. Deve incluir as variáveis operacionalizadas

As variáveis da hipótese devem poder ser medidas ou registradas com as técnicas e instrumentos que você selecionou. Uma variável que você não consegue operacionalizar com seus recursos não deveria aparecer na sua hipótese.

Estrutura básica de uma hipótese bem formulada

Se [condição ou variável independente], então [resultado esperado na variável dependente], em [contexto específico].

Ou em sua forma afirmativa direta:

Existe uma relação [positiva / negativa / significativa] entre [variável 1] e [variável 2] em [unidades de estudo / contexto].

Tipos de hipótese conforme sua função

Além dos holótipos, as hipóteses podem ser classificadas por sua função dentro do desenho:

  • Hipótese de pesquisa (Hi): a proposição principal que o pesquisador espera corroborar.
  • Hipótese nula (H0): afirma que não existe a relação ou o efeito proposto em Hi. Serve como ponto de contraste estatístico em desenhos quantitativos.
  • Hipótese alternativa (Ha): propõe uma relação diferente da de Hi, usada quando se exploram direções distintas da antecipada.
  • Hipótese de trabalho: uma versão provisória que orienta as primeiras etapas do desenho e pode ser reformulada à medida que a pesquisa avança.

Na maioria das teses de graduação e em muitas de pós-graduação, basta formular a hipótese de pesquisa. A hipótese nula e a alternativa são mais próprias de desenhos com análises estatísticas de significância.

Erros frequentes ao formular hipóteses

Erro 1: formular hipótese quando o holótipo não a exige

Um tesista com pesquisa descritiva que escreve “presume-se que as características da liderança são positivas” não está formulando uma hipótese: está escrevendo uma expectativa sem sustentação. E, pior ainda, está distorcendo seu desenho ao acrescentar um elemento que sua pesquisa não pode nem deve verificar.

Erro 2: a hipótese não corresponde ao objetivo geral

Se o objetivo geral é “descrever as características de X”, mas a hipótese diz “X tem um impacto positivo em Y”, há uma fratura: o objetivo não busca medir impacto, e o desenho tampouco o permitirá.

Erro 3: variáveis não operacionalizáveis

Hipóteses com termos como “qualidade de vida”, “bem-estar” ou “sucesso” sem definição operacional são inviáveis. Cada variável da hipótese deve ter uma definição que permita sua medição ou registro com as técnicas selecionadas.

Erro 4: redigir a hipótese como pergunta

A hipótese é uma afirmação, não uma pergunta. “Existe alguma relação entre X e Y?” é o enunciado holoprático. A hipótese responde a essa pergunta de forma tentativa: “Existe uma relação positiva entre X e Y”.

O que isso significa para a sua tese?

Antes de escrever qualquer hipótese, responda a esta pergunta: “o meu holótipo de pesquisa exige verificar uma proposição antecipada?”

Se a sua pesquisa é exploratória, descritiva, projetiva ou avaliativa, a resposta é não. Você não precisa de hipótese. Você pode mencioná-lo explicitamente na sua metodologia: “Dada a natureza [descritiva / projetiva / etc.] desta pesquisa, não se formula hipótese de pesquisa, já que o objetivo não é verificar uma proposição, mas sim [descrever / projetar / avaliar]”.

Se a sua pesquisa é confirmatória ou preditiva, a resposta é sim. Formule a hipótese certificando-se de que:

  1. Seja coerente com o seu enunciado holoprático e o seu objetivo geral.
  2. Expresse uma relação entre variáveis operacionalizáveis.
  3. Possa ser submetida a verificação com as técnicas que você selecionou.
  4. Seja uma afirmação, não uma pergunta nem um desejo.